terça-feira, 6 de abril de 2010

A casa azul

Listael acorda encharcado de suor, ergue seu corpo sentando rapidamente na cama puxando o ar que lhe faltava no sonho.
Pesadelos, já houve um tempo em que a maior preocupação dele era acordar antes de ser pego pelo monstro, hoje ele sabe que seus pesadelos vão muito além disso, que sua vida se divide em dois mundos distintos que muitas vezes se cruzam.
Ele permanece sentado por alguns instantes, pensando em seu sonho, no homem que atravessou o espelho e na mulher. Com o celular na mão ele esperava uma ligação, mas isso não aconteceu.
***
A imagem distorcida da mulher permanece na cabeça de Listael como se ele tivesse que encontrá-la, pelo menos foi isso que ele entendeu com o sonho. O que o levou mais uma vez para a parte pobre da cidade, ruas estreitas, lotadas de pessoas, animais e lixo. O ônibus em que está, cruza as ruas em solavancos, jogando as pessoas do seu interior umas sobre as outras, mas quem se importa? Estar em um ônibus é como se desligar da vida, entre o momento em que se entra ao que se sai, se tornando apenas mais um pedaço de carne apático balançando a mercê das curvas.
O dia permanece completamente nublado, como se a luz do sol fosse impedida de tocar o solo por uma cortina de fumaça escura. Na paisagem um grande cemitério cruza o ônibus, alguns fazem o sinal de cruz enquanto outros não demonstram a menor reação. Para Listael cemitérios são como depósitos, como as gavetas que se guardamos tudo aquilo que pretendemos nos esquecer e que não importa para nossas vidas, mas que não nos sentiríamos a vontade de jogar fora.
Ele desce em uma esquina e começa a subir uma escadaria estreita cortada em duas por um corrimão central. Mais a frente dois garotos armados o barram, nesse momento ele tenta manter a calma e diz: - Estou indo para a casa azul falar com o velho.
Os garotos o observam por alguns segundos, em seguida o deixam passar. Listael sobe até o topo do morro, em uma enorme pedra está a casa azul isolada de tudo. De lá é possível ver toda a favela, o cemitério e os prédios decrépitos do centro da cidade mais ao longe. Listael chega na casa e uma fila se forma dentro dela. Várias pessoas vão até lá todos os dias pedir conselhos e rezas para o "velho" que dizem ser um médium poderoso. Muita gente de "classe" costuma procurar seus serviços e alguns poucos tentam corrompe-lo oferecendo grandes quantias de dinheiro por "trabalhos", mas que ele nunca aceita e sempre afugenta esses tipos.
O jovem fica horas sentado aguardado e quando chega sua vez o "velho" se levanta do banco da varanda onde estava atendendo e o convida para entrar em sua casa. Listael entra em uma pequena sala com várias estátuas de figuras religiosas, algumas familiares outras não. O ambiente é iluminado por uma única luz no centro sobre um tapete com desenhos estranhos e símbolos. O velho pega duas cadeiras e as coloca sobre o tapete, ambos se sentam e dão as mãos.
- Como é bom vê-lo. Do que meu filho precisa? Disse o velho como quem vê um amigo de tempos atrás.
- Preciso achar uma garota, acredito que ela corre perigo. Mas eu não sei nada sobre ela, eu a encontrei em um sonho e acredito que ambos corremos perigo.
- Filho quando você encontra alguém em um sonho e essas pessoas não diz seu nome é porque alguma coisa não saiu como devia.
Nesse momento o jovem começou a ouvir sons vindo do outro lado da porta, como se cães enormes cheirassem e batessem suas patas contra a porta, mas o velho segurou sua mão firme para que ele não se distraísse. A luz começou a piscar na mesma hora e uma série de sombras preencheram o lugar, que foi tomado por um frio súbito e se podia ouvir sussurros incompreensíveis nas esquinas da sala.
- Meu filho você precisa encontrá-la do lado de lá primeiro, pegue 10 sementes de melancia soque com hortelã e cravo, sente-se em uma cadeira e acenda velas e concentre-se no espelho e na mulher que viu. O velho falava rápido, deu para notar uma certa pressa no seu modo de falar.
Em seguida o velho se levantou e olhou fixamente para a luz pendurada na sala, esta brilhou a ponto de ofuscar a visão do jovem e depois explodiu em uma imensa bola de fogo, levando consigo todas as sombras que estavam por lá e silenciando o local.
O homem se sentou na cadeira cansado e com uma expressão bem diferente, como se o "velho" tivesse deixado o local.
- Não posso ajudar em mais nada. Disse o homem com uma voz completamente diferente.
Listael se levanta e sai da casa sem dizer nada. Sua mente tentava entender tudo aquilo que acabou de ver.

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