segunda-feira, 26 de abril de 2010

O seleiro rústico

Listael perdeu a conta de por quanto tempo dormiu depois que chegou a sua velha casa. Seu corpo estava esgotado de tudo que aconteceu.
A casa a muito está abandonada, desde a morte de seus pais, Listael se tornou um estranho dentro dela. Os móveis cobertos por lençóis brancos empoeirados, iluminados apenas por algumas poucas velas, com a água e luz cortadas. Um lugar desolado e sem vida. Devorada dia após dia pelos cupins, ferrugem e pelo lodo.
Listael acorda com o impulso de procurar a mulher do seu sonho. Existe uma aflição no jovem com relação a mulher e uma ansiedade crescente de encontrá-la, em seu íntimo ele acredita que essa mulher trará respostas para todos os acontecimentos recentes.
"-Ela é a chave". Ele ouve a voz dentro da sua mente dizer.
O jovem pega os ingredientes e vai para a velha sala empoeirada, retire o lençol de um espelho de corpo que descansa recostado na parede, se senta em uma cadeira no meio do enorme salão, acende velas em torno de si formando um circulo de luz.
Com o copo em mãos, ele bebe a mistura e volta a encarar seu reflexo, pensando na misteriosa mulher. Após algum tempo, o jovem percebe uma espécie de fumaça saindo de dentro do espelho, ele já não enxerga seu reflexo com clareza, em um dado momento o espelho começa a se mover levemente, como pequenas ondas de um lago, por onde a fumaça passa.
O jovem levanta e se aproxima do espelho, onde sua imagem deveria estar. Ele enfia sua mão no líquido e sente atravessar o espelho. Seu braço parece coberto por uma substância um pouco mais pesada que o ar, porém, mas mais leve que a água.
Depois disso ele cruza a janela do espelho. Para dentro do nevoeiro.
Já do outro lado, ele se encontra em um lugar estranho, silencioso, sem iluminação alguma, mas possível de se enxergar através. Um nevoeiro espesso, que se move apenas com os movimentos de seus braços e pernas, indo do nada a aparentemente lugar algum. Aos poucos, conforme ele caminha, a névoa se torna fina como um véu e através dela ele observa uma construção. Aos poucos o prédio de madeira vai apresentando suas formas e contornos e conforme sua visão se adapta ao mundo dentro do espelho ele percebe que, por mais uma vez, está em frente ao velho seleiro rústico que sonhara noites atrás.
Ele caminha para a grossa porta e a abre com um pouco de dificuldade. O ambiente está vazio, mas exatamente como ele viu em seus sonhos dias atrás. Talvez com um pouco menos de cor que em seus sonhos, mas exatamente como ele o deixou.
Imediatamente, Listael volta seus olhos para a porta que os anjos guardavam distante de seu alcance. De impulso curioso ele vai até ela.
Com cuidado e até um pouco de medo ele abre a porta e percebe uma pequena despensa, dentro dela, apenas uma foice com uma lâmina escura.
Isso? O que significa isso? O que os anjos guardavam afinal? Será que eles já removeram aquilo que estava ali? Pensava o jovem enquanto sua mão ia de encontro a foice. Quando ele finalmente a tocou ouviu uma voz dentro de si dizendo: - Ceifador! A voz parecia ecoar de algum ponto de dentro do nevoeiro em forma de um leve sussurro quase inaudível.
Ele a segurou por alguns momentos, serrando seus punhos em sua madeira fria, sentindo todo seu peso em mãos. Ela pesava como o julgamento de um carrasco ao cumprir seu ofício e isso o fez ter vontade de solta-la. Depois disso, ele a colocou novamente em seu lugar e fechou a porta, arrependendo-se de desobedecer aos anjos.
Em sua cabeça ele ouviu a voz dizer: - Chame-o.
Listael caminhou para o centro do salão e gritou: - Eu chamo o último inocente! - Sem saber o porque das palavras, elas apenas brotaram e saíram de sua boca sem passar por seu julgamento.
Sua voz ecoou no nevoeiro e este começou a criar uma espécie de redemoinho no centro do seleiro. A névoa foi tomando forma e a figura do menino de macacão até que finalmente ele apareceu e a névoa se tornou fina e imóvel novamente. Sete luzes cobriram o local e delas se formaram sete anjos com seis pares de asas cada um.
- Eu sou o ultimo inocente! Porque me chamas? Disse o menino.
- Eu sou o Oblata. Vim em busca da mulher que atravessará o lago comigo. - Disse Listael.
- Tu buscas pelo vencedor. Pois lhe darei o caminho porque é chegada a hora.
O menino então fez um gesto com as mão, chamando Listael para próximo. Ele deu alguns passos e se ajoelhou na frente da criança, que pôs sua mão diminuta na face do jovem e uma série de imagens percorreu sua mente. Seus olhos ardiam em chamas e tudo que ele podia ver eram as imagens que o menino, de alguma forma, colocava em sua memória. Entre elas, o local onde a mulher estava.
Empurrando a cabeça de Listael para longe o menino disse: -Agora vá, o umbral não é seguro para ti.
Um medo subiu a espinha de Listael e ele saiu do seleiro as pressas, sem entender o que viu em sua mente. Poucos passos depois, o jovem estava novamente perdido em meio a densa nevoa.
Perdido ele caminhou alguns passos e novamente viu a janela do espelho. Atravessando-a de volta a sua já não mais viva casa.

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