Listael nunca foi um sujeito normal, desde a infância ele foi um menino por vezes distraido de mais, por vezes reservado demais. Sua imaginação parecia confundir as linhas entre a verdade e a fantasia, o que lhe causou muitos embaraços no decorrer de sua vida. Hoje o jovem Listael é um belo, porem descuidado rapaz, com cabelos castanhos sempre despenteados e crescidos além do ponto, vestido com jeans, camisa verde escura e tênis, o jovem de carisma elevado, quase sempre passa despercebido por sua falta de jeito com as pessoas. Desistir da terapia o fez acreditar que seus sonhos eram na verdade avisos, preparando-o para algo que estava para acontecer. Algo que iria acontecer nesta noite, no boteco que ele sonhara noites atrás e que encontrará na vida real.
Quando Listael se dá conta, ele está em um bar na parte suja da cidade, ratos famintos correm pelas ruas esperando que o último freguês parta para que eles tomem seu lugar.
Ele está sentado no meio do pequeno estabelecimento, a sua esquerda está a porta de entrada do local e a direita um gordo senhor mastigando um palito de dente lança um olhar feio para o jovem, como quem julga em silêncio alguém que enxerga o errado, o sujo e o inconveniente, como a mancha de sujeira que estava no seu copo antes mesmo de enche-lo. Mas isso não seria um problema porque o jovem não pretendia beber nem um gole da cerveja a sua frente.
Uma sensação de constrangimento toma o ambiente quando eles se olham, Listael sorri sem graça, mas o homem não demonstra reação alguma.
É quando Listael repara uma voz na sua frente, um senhor já um tanto alterado pela bebida conta um de seus casos, talvez ele estivesse sentado ali desde o início da noite, babando e cuspindo doses de álcool no jovem.
Listael precisava tirar a prova de tudo que viu e sonhara, saber se era realmente real. Mais uma vez ele se pergunta o que estaria fazendo ali e subitamente a resposta surge em sua mente: "espere". A mão direita vagarosamente se move para sua cintura, segurando firme o cabo da faca "Tumi". Que ele encomendou conforme descrito nos antigos rituais de sacrifício, gastando o resto do salário que conseguiu em seu breve emprego de faxineiro.
Por alguns instantes ele pensa como seria matar alguém de verdade, como seria a sensação de cravar a faca na carne de outra pessoa, ve-la estribuchar até a morte. É claro que ele não era do tipo psicótico que sentia prazer nisso, ele só queria tirar a prova tudo que sonhou até hoje, descobrir se realmente era ou não louco.
Mais uma vez o jovem se pergunta se é a vez do dono gordo arrogante ou do simpático cuspidor, a resposta vem "é o que entrará agora". Listael se vira aos passos de um sapato chique que pisa no ressalto do boteco em direção do balcão. Um homem bem vestido caminha a passos curtos e andar pomposo, ao perceber que o jovem o encara ele faz um leve comprimento com a aba do chapéu e um sorriso intimidador do tipo não mexa comigo filho.
Na frente do balconista ele para e pede uma bebida enquanto acende um cigarro fedorento. Parece alguém que teve um dia cheio e que agora deseja aproveitar um pouco sua madrugada. Listael sabe que deve agir, em segundos ele repassa na mente onde enfiar a faca para matar sem muita dor e no momento em que ninguém parecia atento ele levanta já retirando a faca que brilha na luz pendurada por um fio no teto, mas ele se esqueceu novamente do bêbado, que ao ver a faca, diz alguma baboseira e atrai a atenção do homem.
No momento em que ele vê a faca lança um olhar de espanto, não por ver a lâmina, mas as runas talhadas no metal negro. Ele larga o cigarro e salta o balcão, corre em direção de um pequeno corredor e chega a um apertado banheiro. O jovem pensa que sua presa está encurralada, mas o estranho senhor pega impulso e se joga em direção ao espelho como quem salta uma janela, dentro de sua cabeça Listael ouve um grito "pegue-o" e ele salta por impulso atrás da vítima. Para surpresa do jovem, metade do corpo do homem já cruzou o espelho quando a faca corta sua carne, o sangue escuro voa na parede e molha o vaso, mas o homem termina de atravessar o espelho antes que o jovem consiga agarra-lo.
Perplexo, Listael examina o espelho com as mãos, percebendo que não passa de um espelho comum. Por um instante ele pensa se tudo isso foi real, se realmente existia o homem que perceguiu, mas as marcas de sangue provavam isso.
Ainda ofegante ele guarda a "Tumi", quando percebe que o dono do bar está na porta do banheiro imóvel, tentando entender o que se passa.
O jovem então ageita sua camisa, depois disso ele sai em direção a rua.
O sol já brilha na pequena rua e as pessoas saem de suas casas em direção ao ponto de ônibus.
Sua cabeça doi de fome e sono, cançado ele se senta no ponto. Uma garotinha olha para ele, que sem paciência desvia o olhar, como quem diz não quero papo.
Em sua cabeça ele pensava em tudo que acabou de acontecer e que aquele homem não poderia ser apenas um homem.
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